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O estudo da crise climática e dos conflitos socioambientais a partir de perspectivas culturais, linguísticas e ligadas à tradução vem crescendo nas últimas duas décadas. Além disso, a "tradução do conhecimento" tornou-se uma das noções-chave nas discussões que centram a necessidade de tornar acessível ao público em geral o conhecimento técnico-científico e relacionado à saúde sobre as alterações climáticas e os seus impactos e, além disso, de transformar a informação científica em ações efetivas. Os estudiosos têm argumentado que essa noção, que muitas vezes ignora a tradução interlingual e suas complexidades, pode se beneficiar de um envolvimento mais profundo com os aspectos linguísticos e interculturais relevantes ao público-alvo, a fim de superar a compreensão unidirecional padrão desse processo (Susam-Saraeva, 2024; Ødemark & Engebretsen, 2022). Essas importantes contribuições também enfatizaram a necessidade de diálogos transdisciplinares entre acadêmicos dos estudos da tradução e pesquisadores de outras áreas para compreender melhor como o discurso sobre as mudanças climáticas circula pelo mundo e como é apropriado e utilizado. Por exemplo, pesquisas recentes têm apontado para a necessidade de “redirecionar o enfoque da noção abstrata de como a tradução deve ser conduzida, para de que maneira atores e agentes específicos já estão realizando o trabalho de tradução na prática” (Susam-Saraeva, 2024, para. 32). O papel e as características da tradução e dos tradutores envolvidos em processos concretos no âmbito de conflitos ambientais ainda não foram examinados em toda a sua complexidade nos estudos da tradução, nas ciências humanas e sociais em geral. As áreas interessadas em análise de tradução podem recorrer a um vasto acervo de pesquisas realizadas por acadêmicos dos estudos da tradução que têm examinado a tradução no contexto de conflitos e violência, ativismo e movimentos sociais (Baker, 2019; Boéri, 2023; Fernández, 2020; Gould & Tahmasebian, 2020; Inghilleri, 2008; Todorova & Ruiz Rosendo, 2021), os quais também são crucias para analisar os aspectos tradutórios da crise climática.
Este artigo tem como base a minha longa experiência em tradução e pesquisa etnográfica no contexto de um conflito socioambiental na Patagônia argentina acerca de uma técnica de extração de óleo e gás chamada de fraturamento hidráulico, para investigar a coprodução intralingual e interlingual de conhecimento, e a tradução como um processo bidirecional inserido na resistência mais ampla de organizações e comunidades locais a projetos extrativistas que estão no cerne da crise climática. O artigo argumenta que a tradução, quando articulada, compreendida e praticada como parte da coprodução de conhecimento com as comunidades afetadas e como parte integrante da construção mais ampla de alternativas libertadoras, pode ajudar a percorrer o caminho entre a pesquisa e a resistência.
Esse conflito vem se desenrolando na Patagônia argentina (principalmente nas províncias de Neuquén e Río Negro) desde 2009-2011 e pode ser situado no contexto mais amplo dos regimes (neo)extrativistas na América Latina no início do século XXI (Svampa, 2019). O extrativismo é um conceito controverso. Aqui, ele não é empregado simplesmente para denotar sistemas de extração tecnológica de matérias-primas, mas, seguindo Machado Aráoz, como “regimes extrativistas”: formações político-econômicas com base na superexploração de territórios nas periferias do sistema-mundo e de seus bens naturais (2015).
Começo explicando a importância de esclarecer como se entende a crise climática e suas origens nas abordagens tradutórias, e de detalhar a própria compreensão da tradução ao discutir a crise climática e sua linguagem e narrativas. Assim, primeiro a crise climática é caracterizada como uma crise do Capitaloceno, a Era do Capital, por meio das contribuições teóricas da ecologia-mundo e da ecologia política latino-americana (Machado Aráoz, 2016; Moore, 2015). A tradução, por sua vez, é entendida tanto como um espaço de ação política e reflexão (Baker, 2013) quanto como uma relação social, sem ignorar sua materialidade linguística (Bielsa, 2023) nem o fato de que ela ocorre em um sistema-mundo específico. A resistência contra as múltiplas manifestações da crise inclui, como no caso que examino, ações voltadas para a coprodução de conhecimento e narrativas alternativas a serviço de um objetivo maior: o questionamento e a ruptura das estruturas materiais que sustentam os sistemas de opressão.
Com base no trabalho etnográfico em andamento, este artigo oferece exemplos concretos de coprodução de conhecimento por meio da tradução interlingual e intralingual, o que mostra que reduzir o impacto da tradução das principais políticas climáticas ou estruturas de “desenvolvimento sustentável” à traduções culturalmente mais sutis e localizadas, ignora a rica variedade de estratégias adotadas por tradutores, comunidades e organizações de base. No caso de conflitos relacionados às indústrias extrativistas, como o descrito aqui, a tradução do conhecimento intralingual como primeiro passo é um processo fundamental para a democratização do conhecimento e o acesso à energia como um direito humano. A tradução entre idiomas auxilia nesse processo. Tanto as traduções para o espanhol que documentam os impactos ambientais e na saúde do fraturamento hidráulico quanto os diversos documentos e relatórios envolvidos em debates relacionados ao clima tornam-se um ato político. Por sua vez, eles servem como fontes que alimentam textos derivados coproduzidos em conjunto com o conhecimento e as contribuições locais. Estes são empregados em treinamentos e intercâmbios com sindicatos de professores, assembleias de bairro, comunidades indígenas e a sociedade em geral. Dessa forma, o textual está ligado ao território e às suas necessidades. Além disso, a coprodução de conhecimento, da qual a tradução faz parte, serve ao objetivo epistemológico de alcançar uma compreensão tão adequada quanto possível da realidade da crise climática nos territórios.
O tipo de metodologia utilizada nesta pesquisa é “uma prática capaz de articular envolvimento e pensamento. (…) pesquisa militante envolve participação por convicção, onde os pesquisadores atuam em ações e compartilham objetivos, estratégias e experiência (…) não apenas porque essa conduta é uma maneira conveniente de obter seus dados” (Bookchin et al., 2013, p. 9). Esse tipo de prática requer um conjunto de métodos que dependem do ambiente em que o pesquisador participa ativamente de várias maneiras (Russell, 2015). A variedade de maneiras pelas quais a pesquisa ativista em tradução e a tradução ativista se desenvolvem juntas, bem como suas particularidades, ainda precisam ser exploradas em profundidade, para não serem incluídas a priori às características de outros tipos de ativismo.
Por meio dessas experiências e metodologias situadas e engajadas, estudiosos de diferentes áreas, incluindo a área de saúde ambiental e movimentos sociais, podem observar como a comunicação intralingual e interlingual se cruza em um conflito socioambiental, compreendendo as relações que envolvem, e são facilitadas, pela tradução humana e seu potencial em uma crise de proporções globais.
