Uma geração de actores da História e de escritores de histórias

DOI : 10.35562/textures.75

p. 33-41

Traduction(s) :
Une génération d’acteurs de l’Histoire et d’auteurs d’histoires

Plan

Texte

Não há escritas neutras. Todas as literaturas pertencem a um dado mundo e expressam um ponto de vista. Felizmente que é assim. A cultura vive da interpretação que os homens fazem dos seus valores, tradições e aventuras e está associada à História.

Isto para dizer que a literatura sobre a guerra colonial portuguesa tem dois lados : o dos escritores portugueses escrevendo sob um ponto de vista de portugueses, literatura portuguesa, e o dos que escrevem sob o ponto de vista dos africanos que lutaram contra os portugueses, literatura nacional dos respectivos países. Este texto é sobre literatura portuguesa, expressa o ponto de vista dum autor português que participou na guerra colonial e que, confrontado com essa experiência, ganhou a convicção que ela não podia ser ganha.

Aquilo que podemos designar como a tomada de consciência sobre a guerra colonial é, no meu caso, em primeiro lugar uma convicção baseada no que observei nos teatros de operações de Angola, Guiné e Moçambique, da impossibilidade de obter uma vitória, da possibilidade duma derrota.

A minha tomada de consciência começa com uma « análise da situação militar » e só depois evolui para uma tomada de consciência política assente em três pontos :

  • A ilegitimidade do regime político português – a ditadura de Salazar/Caetano ;

  • A sua incapacidade para encontrar uma solução política para o problema colonial ;

  • A injustiça inerente à situação colonial de não reconhecimento dos direitos dos povos africanos das colónias à sua independência.

É um percurso comum que partilhei com muitos outros militares da minha geração e nos levou a derrubar o regime e a fazer a revolução do 25 de Abril. Primeiro enfrentámos a realidade da guerra e a consciência política foi ganha nela.

É certo que, entre os portugueses que escreveram sobre a guerra colonial, existe uma banda larga de pontos de vista que vai desde os que não reconheceram sequer a qualidade de ser humano aos adversários até aos que os apoiaram nas suas revoltas e lutas pela dignidade e pela independência, mas essa pluralidade não anula o facto, para mim evidente, de que existe um ponto de vista do colonizador e um ponto de vista do colonizado.

Mesmo que o colonizador seja a favor dos direitos do colonizado, ou o colonizado seja aliado do colonizador, essa diferença radical mantém-se e é sempre reflectida na escrita.

De facto, não podemos pensar como o outro. Quando muito, podemos imaginar como o outro pensa. O lobo pode vestir a pele do cordeiro, mas não pode ser o cordeiro. Esta distinção, que assumo, talvez seja a mesma que distingue a literatura feita por mulheres e por homens. Não estou certo que exista uma literatura de mulheres e outra de homens, mas se essa diferença existe, estou certo que ela é menor do que a diferença entre a literatura do colonizador e a do colonizado.

Uma outra nota : Quando refiro literatura incluo a ficção, romance e novela, a poesia, o ensaio e a história. A separação dos géneros literários tornou-se um problema de tão difícil resolução que não me atrevo a ir mais além que falar de autores ou escritores. Deixo a cada um deles definir-se como romancista, novelista, poeta, ensaísta, historiador, até jornalista, e aos teóricos classificá-los.

Aquilo que constitui o corpo central do que penso sobre a literatura portuguesa que tem por base temática a guerra colonial – a minha tese – é que ela apresenta características próprias que a individualizam dentro da literatura portuguesa e a distinguem de outras literaturas sobre o tema da guerra. Isto é, que essa literatura e os seus autores, apesar das diferenças de estilo, de técnicas, de sensibilidades políticas e ideológicas, apresentam um elevado grau de unidade na abordagem desse tema.

Estas particularidades podem ser apreendidas através da análise resultante das respostas às perguntas :

  • Quem escreve? – o que conduz à discussão sobre a existência (ou não) duma geração de escritores da guerra colonial;

  • O que se escreve? – o que implica procurar os traços comuns da literatura portuguesa sobre a guerra colonial.

Quem escreve

Dum modo geral, podemos dizer que quem escreve e escreveu pertence a uma geração de homens e mulheres que participaram na guerra colonial, que foram actores da história, que de algum modo nela intervieram.

O facto da imensa maioria dos escritores da guerra colonial ser participantes dela é uma característica decisiva, marcante : é uma escrita sobre o que os autores viveram. É uma escrita, como diria Camões, que resulta de « um saber de experiência feito ». É uma literatura presencial.

Embora os mesmos actores e autores possam ter participado de várias formas na guerra, podemos dividi-los enquanto autores em grandes grupos :

Apoiantes do regime de Salazar/Caetano e da sua política colonial

São escritores, como Reis Ventura e Armor Pires Mota, que fazem a apologia da política colonial portuguesa, das suas soluções de « Defesa do Ultramar », da guerra que a sustentava e das suas acções militares. Foram, logicamente, aqueles que tiveram a oportunidade de publicar durante a guerra.

Oposicionistas

Os que participaram desde cedo na contestação política do regime de Salazar/Caetano, que foram oposicionistas à ditadura que conduziu Portugal ao impasse histórico da guerra colonial.

São maioritariamente estudantes universitários que participaram nas lutas estudantis que tiveram as suas crises em 1962, 1969, 1973.

Entre este grupo podemos distinguir os que, apesar de oposicionistas, participaram na guerra – como Manuel Alegre, Fernando Assis Pacheco, Martins Garcia – e os que optaram por desertar, ou dela ficaram livres, como Mário de Carvalho. São homens e mulheres que, à partida, têm já uma forte consciência política.

Participantes

Os que participaram de algum modo na guerra que durou 14 anos e que dessa experiência retiraram a matéria-prima para se fazerem escritores.

É o grupo mais numeroso e nele encontramos adeptos da guerra e oposicionistas.

Encontramos os que fizeram a guerra como combatentes em unidades de combate, incluindo as forças especiais, e militares dos serviços, não directamente envolvidos em combate.

Encontramos militares profissionais e militares do serviço militar obrigatório, maioritariamente oficiais, alguns sargentos, muitos raros soldados, o que corresponde ao grau de literacia, aos hábitos culturais, à facilidade de expressão e de acesso aos meios de comunicação dos três grupos da hierarquia militar.

Nos anos logo após a revolução, década de 80, esses escritores tinham sido maioritariamente oficiais « milicianos », alferes, durante a guerra – uma literatura de alferes – assim a classificou Rui Teixeira no seu livro A Guerra e a Literatura, mas aos poucos surgiram cada vez mais obras de militares profissionais – neste caso militares que fizeram a guerra como capitães.

Os primeiros têm uma escrita muito politizada, muito centrada na maldade intrínseca da guerra, nos sofrimentos individuais, onde a guerra surge como um « azar na vida », e os segundos tendem a teorizar sobre a guerra, diluindo as causas da guerra e as suas consequências individuais no fenómeno geral da guerra.

Quanto aos sargentos e soldados, com excepção de Vicente do Carmo, um sargento pára-quedista, só agora começam a surgir obras deste grupo. Obras curiosas, que em muitos casos aproveitam as potencialidades das novas tecnologias, da Internet, para se expressarem. É uma literatura de homens que recordam os factos da sua « comissão ». Muito próxima dos factos que viveram. Têm títulos como : A minha Comissão, A minha Companhia, que incluem por vezes o número oficial da sua unidade, do género : Companhia de Caçadores 1333, ou o seu lema : Os Leões do Niassa, por exemplo.

Encontramos ainda as mulheres que acompanharam os homens mobilizados, como Lídia Jorge e Joana Ruas, ou que eram originárias de África, como Wanda Ramos.

Lídia Jorge esteve na Beira, em Moçambique, onde situou o seu A costa dos Murmúrios, Joana Ruas em Timor e escreveu o magnífico Corpo Colonial.

Independentemente das suas posições ideológicas o que une estes homens e mulheres e permite classificá-los como uma « geração » é o facto de terem vivido um tempo marcado por um grande acontecimento e de o terem elegido como tema central, ou inicial, da sua obra.

Desse tema, a guerra colonial, considerando como guerra colonial não só as acções militares, mas também as suas causas, a ideologia, a administração, as consequências individuais e colectivas, políticas, sociais e psicológicas fizeram em conjunto, mesmo que involuntário, um corpo literário que, em minha opinião, será considerado no futuro como um capítulo da literatura portuguesa do século XX.

Embora muitos desses autores tenham evoluído para outras temáticas, a guerra colonial foi o seu ponto de partida e está, mesmo que de forma subtilmente encoberta, presente nas suas obras posteriores.

Podemos interrogar-nos se esses autores não escreveriam mesmo que não tivessem vivido a experiência da guerra e a resposta é que talvez escrevessem, que talvez fossem escritores, mas talvez não fossem todos os que hoje o são e, seguramente, não escreveriam o que escreveram e não escreveriam como escrevem sem essa passagem pela guerra.

Uma outra questão é sabermos se esses escritores sentem essa pertença a uma geração e a uma temática. Muitos dirão que não. Mas essa recusa tem mais a ver com o modo como cada um se vê e revê no tempo actual – o tempo da individualidade, da originalidade – do que como será julgado no futuro.

O que me permite aceitar como facto a existência duma geração de escritores da guerra colonial tem a ver, além das balizas do tempo e do tema, com a forma como o fizeram e fazem. Tem a ver com o olhar sobre o que se escreve.

O que se escreve

O que se escreve e escreveu na literatura portuguesa sobre este tema tem sido classificado, nomeadamente por João de Melo, como literatura da guerra colonial, literatura de combate e literatura da libertação.

Esta classificação tem a vantagem de conter os 3 elementos essenciais para abordarmos o que se escreve e escreveu sobre a guerra colonial portuguesa :

  • Guerra colonial remete para a componente ideológica e política desta guerra.

  • Combate remete para a componente armada, militar, operacional da guerra.

  • Libertação remete para o oponente, o adversário, o outro, o inimigo sem o qual não há guerra.

A componente ideológica e política desta guerra é, do meu ponto de vista, balizada por duas constantes : o Império e o Ultramar.

As grandes ideias – a ideologia – e a sua aplicação – a política – são os dois grandes pilares que sustentam a guerra colonial, estão sempre presentes nas obras sobre ela e têm, a meu ver, raiz no mito português do Império. Isto é, na interpretação que os portugueses fazem do império e que é diferente da dos outros povos que também foram potências coloniais.

Para os portugueses o Império é uma fuga. Ameaçados pelo grande vizinho espanhol fugimos para o mar. O Império, para os portugueses, foi um local de refúgio.

Se consideramos o império português como um local de refúgio, tornamse claras, ou mais claras, as grandes constantes da literatura portuguesa da guerra colonial e as diferenças com as de outros povos europeus, nomeadamente os franceses e os ingleses.

Para os portugueses, perdido o Brasil e o pouco que restava da Índia (Goa, Damão e Diu), as colónias africanas, o império que sobrou, eram a última oportunidade de existirmos – tese sempre presente nas obras dos situacionistas/nacionalistas. Ou eram o local onde deixaríamos de existir – tese dos oposicionistas.

No fundo, ambos pensavam o mesmo : sem colónias não havia Portugal. A única diferença estava em que os nacionalistas eram (ou queriam fazer que eram) optimistas e os oposicionistas eram assumidamente pessimistas, na linha do tradicional decadentismo português.

As consequências desta unidade de pensamento à volta do Império estão abundantemente reflectidas na literatura sobre a guerra colonial. O facto de sermos um império de aflitos, de vivermos sempre na aflição do fim, conduziu a uma literatura sem heróis nem vilões.

Não existem heróis na literatura da guerra colonial : existem « tipos » que se portaram bem numa determinada situação : o que foi socorrer o camarada ferido, o que se sacrificou pelo outro. Também não existem grandes vilões, apenas « tipos » que se portaram mal.

Permitia-me aqui referir duas obras dificilmente classificáveis e que, não dizendo respeito ao período da guerra colonial, a explicam melhor que muitas das desse período. São elas Glória e Um Herói Português – Paiva Couceiro de Vasco Pulido Valente. No primeiro, uma biografia de Vieira de Castro, revela este político oportunista que é condenado ao degredo em Angola por assassínio da mulher. Acaba por morrer sem glória numa Luanda mulata e esquecida. No segundo, um militar quixotesco, Paiva Couceiro, destrói por pura bravata o acordo que o colono (sertanejo) Silva Porto estabelecera com o rei Ndunduma, provocando, por vergonha de falta à palavra dada, o suicídio do português, e desencadeando uma nova revolta dos angolanos.

A guerra colonial será a continuação desta política. As colónias serão sempre um local de degredo para os portugueses e de incompreensão dos africanos.

Será sempre com o Império presente que a literatura da guerra colonial se desenvolverá, mas a linha divisória entre os adeptos dela e os oposicionistas estabelece-se sobre um outro conceito, o conceito de Ultramar. O que divide os escritores portugueses é o modo como tratam o « Ultramar », não o Império.

Para os adeptos da guerra, o Ultramar era o Império com outro nome, para os oposicionistas, o Ultramar era um lugar sem grandeza onde uns portugueses ganhavam a vida explorando os negros e outros combatiam e morriam para manter essa exploração.

A literatura reflecte esta dicotomia. E, num parêntesis que tem a ver com a realidade política que esteve na origem do movimento dos capitães e da revolução do 25 de Abril e das suas consequências no tempo de descolonização que se seguiu, refira-se que a descolonização e as divergências à sua volta assentam, a meu ver, na dificuldade de relacionamento entre os conceitos de Império e de Ultramar.

De facto, os portugueses eram, de modo geral, filhos do Império, da extrema-esquerda à extrema-direita todos estavam mergulhados no mito do

Império. O Império era a nossa história. A grande divergência era o que fazer com o Ultramar. O grande problema é que não era possível manter o Império e alienar o Ultramar. Nós gostávamos do Império, do Ultramar é que não. Ainda temos o Império na nossa cabeça, no nosso imaginário, mas não temos o Ultramar.

Os adeptos da guerra nunca conseguiram fazer passar a ideia de que existia um combate pelas grandezas do Império e foram os oposicionistas que impuseram o conceito de degredo duma geração mobilizada para fazer a guerra por um Ultramar que era apenas um lugar detestável, que não sentiam como seu e pelo qual não valia a pena combater.

É curioso reparar como quase toda a literatura sobre a guerra colonial é uma literatura de lamento contra o Ultramar, mas nunca de negação do Império. Lamentam-se os perigos, as condições em que os soldados faziam a guerra, a distância a que estavam de casa e lamenta-se ainda a mediocridade do presente comparada com as glórias do passado, lamentam-se as acções ignóbeis daqueles que deviam fazer a glória do Império – os administradores coloniais, os colonos, os missionários que o denegriam com os seus actos, como é o caso das descrições de colonos e administradores corruptos ou desleixados, de missionários traidores, de militares desertores.

Estamos já a falar de literatura de combate, do modo como os portugueses reflectiram a guerra na literatura.

O Professor Rui Teixeira, da Universidade Aberta, porventura o melhor especialista da literatura portuguesa sobre a guerra colonial, sobre o qual publicou Guerra Colonial e o Romance Português1, A Guerra e a Literatura2 e o Leitor Hedonista3, sintetiza em três palavras os temas característicos deste género literário : Orgulho, Culpa e Nostalgia.

Para Rui Teixeira, os trabalhos literários vindos a público antes do 25 de Abril, os dos adeptos do regime, são caracterizados pelo Orgulho, surgem com um « capacete ideológico », fazem a defesa apaixonada do heroísmo, dos valores viris e do militarismo. É uma literatura de « lunáticos princípios, não vê a realidade »; nela inclui os nomes de Reis Ventura, Amândio César, Armor Pires Mota, Couto Viana mas também de alguns que publicaram após o 25 de Abril como Alpoim Calvão e Barão da Cunha, dois militares.

Após a revolução, surgem os textos do ajuste de contas com a guerra colonial. Uma literatura com a base emocional da Culpa, nas suas grandes linhas auto-punitiva, antimilitarista e anti-heróica. Muitas vezes autobiográfica e que em boa parte constitui a contraface ideológica da literatura de exaltação colonial. Nesta categoria inclui Rui Teixeira obras como « Corpo de Delito » de Eusébio Cardoso Martins, « Miguel Várzea, Alferes e Paisano » de Carlos Urgel Dirceu, « Ombro, Arma » de José Manuel Mendes, « Uma Noite na Guerra » de Carlos Coutinho, « Primeira Coluna de Napainor » de António S. Viana, entre outros.

Rui Teixeira considera que os melhores momentos da literatura da guerra colonial devem conter a poesia de Bação Leal, Manuel Alegre ou Assis Pacheco, o drama Um Jeep em Segunda Mão de Fernando Dacosta, o diário Jornal de Campanha de Liberto Cruz, a prosa de Joana Ruas.

Quanto ao romance, aponta oito « obrigatórios »: O Capitão Nemo e Eu de Álvaro Guerra, Lugar de Massacre de José Martins Garcia, Os Cus de Judas de António Lobo Antunes, Percursos de Wanda Ramos, Nó Cego de Carlos Vale Ferraz, A Costa dos Murmúrios de Lídia Jorge, Jornada de África de Manuel Alegre e Os Navios Negreiros Não Sobem o Cuando de Domingos Lobo.

Com esta ou outra lista e independentemente de apreciações estéticoliterárias, num conjunto de obras eleitas sobre a guerra colonial encontramos algumas constantes :

  • O desconhecimento da realidade colonial por parte da sociedade portuguesa e do confronto com essa realidade a que foram sujeitos os seus protagonistas – militares e civis. A estupefacção.
    As perguntas mais frequentes que podemos retirar das obras sobre a guerra colonial são : Porque estou aqui? O que estou aqui a fazer?
    São as perguntas de homens vulgares apanhados numa esquina da história.

  • A antiheroicidade dos protagonistas, a sua descrença numa saída vitoriosa para a guerra, a resignação que os levava a cumprir os mínimos – estamos muito longe da literatura de Jean Lartéguy na sua trilogia Centuriões, Pretorianos e Mercenários, ou de Os Boinas Verdes que alimentaram a imaginação de alguns militares portugueses no início da guerra.

  • Acima de tudo a Nostalgia. A nostalgia da aventura (por muito que a aventura seja vilipendiada), a nostalgia da juventude. Afinal todos tínhamos vinte anos… e, acima de tudo, por muito que nos custe e mais uma vez, a irremediável nostalgia do Império…

Por fim, porque a guerra não se fez sem o outro, sem o adversário, o inimigo, umas breves considerações sobre o modo como ele surge na literatura da guerra colonial.

Para os autores de antes do 25 de Abril e para aqueles que defendem a guerra, o inimigo é o negro. Ao negro mau, o « turra », o terrorista traiçoeiro ao serviço do comunismo, jamais tratado por guerrilheiro – a quem nunca é reconhecida a qualidade de combatente – opõe-se o negro bom, o que « trabalha » com a tropa portuguesa como guia ou intérprete, o « recuperado » que abandonou a luta e os seus companheiros para se juntar aos portugueses – nunca tratado como traidor, mas como um convertido.

O inimigo é ainda o mulato, uma figura negativa que engana os negros e os portugueses. Normalmente um cobarde. E também o estudante branco, o comunista, o traidor à Pátria.

Para os autores pós-25 de Abril, o negro, o africano em geral, é o explorado, o herói da História. Sempre um lutador pela liberdade e a independência.

O inimigo é o regime e os seus agentes : os militares profissionais, os administradores e funcionários coloniais, os colonos em geral – sempre brutos e boçais.

É esta visão a preto e branco – quase literalmente – que muita da literatura da guerra colonial transmite.

As obras referenciadas no cânone de Rui Teixeira, pelo menos essas, evitam essa dicotomia.

O que se escreve e escreveu sobre a guerra colonial dá-nos uma ideia do olhar que a geração da guerra tem sobre África. Ao contrário da literatura de viagens, da literatura romântica, a África retratada na literatura da guerra colonial é uma África em guerra, não há, normalmente, descrição de belas paisagens, mas de picadas poeirentas ou enlameadas, infestadas de minas, a floresta é uma ameaça donde pode surgir uma emboscada. O clima é agreste, húmido e tórrido. A atmosfera está carregada de electricidade, os mosquitos mordem os corpos. É a África do « mato», dos quartéis isolados, cercados de arame farpado.

Não abundam também descrições dos costumes dos africanos que são reduzidos a estereótipos, gentes pobres, famintas, que vivem em aldeias junto dos quartéis e que servem, as mulheres de « lavadeiras», os homens de « guias» e de « carregadores» nas operações militares. Gentes de quem a tropa desconfia terem ligações com os guerrilheiros.

O que se nota nesta literatura é um grande desconhecimento de África – quase não existem apontamentos antropológicos, nem curiosidade em conhecer os africanos. O desejo é que a comissão de dois anos passe depressa e sem problemas. Uma obra de Vasco Lourenço, capitão do quadro permanente e mais tarde um dos mais importantes capitães do Movimento das Forças Armadas, tem mesmo o sugestivo título No Regresso Vinham Todos.

O que se escreve e escreveu tem também a ver com o lugar onde a guerra foi vivida. As obras retratam maioritariamente a guerra em Angola e em Moçambique. São mais raras as que têm a Guiné-Bissau como cenário. Um exemplo é As Lágrimas de Aquiles de José Manuel Saraiva.

A Guiné, a guerra na Guiné, é de facto dificilmente romanceável. Era uma guerra ainda menos heróica que a dos outros territórios. As tropas portuguesas viviam fechadas nos seus quartéis, sujeitas aos ataques dos guerrilheiros do PAIGC. Os dramas passavam-se no interior dos abrigos, sem muito mais a fazer que esperar que o ataque findasse.

Voltando ao tema da Nostalgia ele é, em minha opinião, o grande tema das mais recentes obras da literatura da guerra colonial. Essa nostalgia é muito evidente nas obras que têm saído e que se apresentam sob a forma de diários ou de recolha de correspondência enviada pelos militares para as suas famílias, mulheres, noivas, namoradas.

Hoje os antigos militares expõem as suas intimidades. É o caso de Lobo Antunes que publicou – através das filhas – as cartas enviadas a sua mulher, e do recente Diário da Guiné de António Abreu.

Mas a que Nostalgia se referem estas obras trinta anos depois de ela ter findado? Ao desejo de voltar a África, de rever o lugar da aventura ou, pelo contrário, ao desejo de regressar ao seu país e ao seu meio?

É claramente a Nostalgia do regresso a casa, à metrópole. A geração que fez a guerra não tem boas recordações de África. Pelo menos na literatura da guerra colonial, África é uma má recordação. Raramente surgem nos textos referências positivas, agradáveis. Não existem paraísos. A descrição no Nó Cego do tempo passado por militares dos « comandos» na Ilha de Moçambique é um dos raros casos de encantamento por uma terra, por um lugar de África. Mas eu sou apaixonado pela Ilha de Moçambique!

Um outro aspecto da literatura da guerra colonial é, ao contrário de outras literaturas de guerra, a ausência de determinadas obras típicas. Obras que a literatura da guerra colonial não tem :

  • Não há obras que possamos classificar como « de quartel-general», isto é, obras onde surjam no centro da trama os homens que conduziram a guerra, os políticos, os generais, o seu estado-maior, as dúvidas dos chefes, os seus conflitos. E todos sabemos que existiram esses conflitos, entre Kaúlza de Arriaga e Marcelo Caetano, entre Spínola e Marcelo Caetano, entre generais, entre generais e governadores. Mas não há obras sobre eles.

  • Não há biografias, romanceadas ou não, dos grandes actores da guerra. Não há romances sobre Spínola, sobre Kaúlza de Arriaga, sobre militares que participaram em grandes operações.

  • Não há romances sobre as grandes operações. Nó Cego continua a ser um caso raro a propósito da operação « Nó Górdio» realizada no Norte de Moçambique em 1970. Não existe, por exemplo, um romance sobre o Dien Bien Phu da guerra colonial portuguesa e que ocorreu em Maio de 1973 em Guileje e Guidage na Guiné-Bissau.

As obras relatam os pequenos/grandes dramas individuais, ou das pequenas unidades, o pelotão, a companhia. Não existe um grande plano, um grande fresco. Definitivamente, a literatura da guerra colonial não terá a sua epopeia. Não haverá nem Lusíadas, nem Histórias Trágico-Marítimas sobre ela.

Existe sim uma literatura da guerra colonial portuguesa construída por uma geração de escritores que nela participou.

Uma literatura determinada pelo mito do Império e pela sua versão menor e corrompida, o Ultramar. Uma literatura decadente, pessimista, antiheróica.

Quer os autores sejam defensores da guerra, quer opositores, não acreditam no futuro de Portugal. Os defensores propunham combater até à exaustão, os opositores evitar o combate.

É uma literatura tipicamente portuguesa, que contém nela quase sempre o mito do eterno retorno a um local e a um tempo longínquos e fantásticos que perdemos e a que, no fundo, não acreditamos que um dia voltaremos.

Nós somos portugueses.

Lisboa 31 de Janeiro de 2007

Notes

1 Rui de Azevedo Teixeira, A guerra colonial e o romance português : Agonia e Catarse, Lisboa, Notícias, 1998. Retour au texte

2 Rui de Azevedo Teixeira, A guerra e a literatura, Lisboa, Vega, 2001. Retour au texte

3 Rui de Azevedo Teixeira, O Leitor Hedonista, Lisboa, Hugin, 2003. Retour au texte

Citer cet article

Référence papier

Carlos Vale Ferraz, « Uma geração de actores da História e de escritores de histórias », Textures, 20 | 2010, 33-41.

Référence électronique

Carlos Vale Ferraz, « Uma geração de actores da História e de escritores de histórias », Textures [En ligne], 20 | 2010, mis en ligne le 23 novembre 2022, consulté le 05 octobre 2026. URL : https://publications-prairial.fr/textures/index.php?id=75

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Carlos Vale Ferraz

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